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Lendas de Cada Dia: Saci-Pererê

  O projeto visa o estudo das lendas e mitos do nosso Brasil, tanto os indígenas como as lendas urbanas que costumamos ouvir das nossas avós quando elas querem nos assustar. Pretendo com isso falar sobre a origem de cada personagem do nosso folclore, não da maneira que já é feito mas abrangendo também a localidade de origem, os costumes dos povos da região e uma visão mais aprofundada do que isso pode ter influenciado nos aspectos psicológicos de cada ser.


 A lenda do Saci-Pererê

Arte de Anderson Awvas


  Nomes: Saci-Pererê, Saci-Cererê, Matimpererê, Matita Pererê, Saci-Saçurá e Saci-Triquê;

  Origem: Muitos acreditam que essa lenda se originou nas tribos indígenas do Sul do país mas com o tempo agregou muitas influências tanto africanas como europeias, isso fica bem explícito nas mudanças que a lenda sofreu no decorrer do tempo o que vamos verificar um pouco mais pra frente;

  Data de Criação: O mito existe desde o começo do século 19;

  Data Comemorativa: O dia do Saci é comemorado em 31 de outubro. No ano de 2005 resolveram criar essa data para contrabalancear o Halloween e tentar dessa maneira a valorização da nossa cultura;

  O Saci-Pererê: O Saci-Pererê sofreu muitas mudanças, tanto em sua personalidade quanto nas características físicas, isso se dá principalmente pelo fato da miscigenação de culturas que temos no Brasil, na época da colonização isso foi muito forte e muitos costumes e lendas já existentes sofreram algumas manipulações. As histórias antigamente eram contadas boca a boca e como sempre dizem: “Quem conta o conto sempre aumenta um ponto”.
  Nos primórdios o Saci era um menino indígena, com o espírito endiabrado (típico de crianças levadas), tinha as duas pernas e um grande rabo. A primeira mudança física veio com a migração do mito para a região Norte, foi ai que surgiu a influência dos africanos, transformando o personagem em um menino negro que perdeu a perna lutando capoeira, sendo que a parte psicológica continuava a mesma, foi aqui também que ele ganhou o seu cachimbo. Só muito tempo depois que a imagem que hoje temos do Saci foi formada, com o acréscimo do gorro vermelho (isso pode remeter aos Trasgos da cultura portuguesa), herança das populações europeias que aqui viviam.
  Voltando um pouco para a origem do mito, temos algumas características interessantes. Sempre aprendemos na escola que o Saci é brincalhão, que passa os seus dias a se divertir fazendo trapalhadas, escondendo objetos e demais coisas que esperamos de uma criança travessa. Mas o que não é dito é que ele é um grande conhecedor das ervas e de todos os chás e medicamentos que podem ser oferecidos por elas, é o guardião desses conhecimentos por assim dizer e quem quiser entrar na floresta atrás disso deve pedir autorização para ele.



  Literatura: Foi a partir da literatura infantil e até infanto-juvenil que esse personagem foi mais difundido. Um grande exemplo é o Sítio do Pica-Pau amarelo de Monteiro Lobato que depois virou desenho e até série televisiva. Aqui temos a típica imagem do Saci-Pererê travesso e com as influências estrangeiras que agora conhecemos. Vale muito a pena lembrar que na origem ele era uma criança indígena, tinha as duas pernas e a única coisa que restou foi seu espírito travesso. 

  Filmes: Com as pesquisas descobri um documentário bem interessante que pode trazer ainda mais conhecimento: “Somos todos Sacys” de Rudá K. Andrade e Sylvio do Amaral Rocha e uma releitura dos contos de Monteiro Lobato: “O Saci” de Rodolfo Nanni.


Fonte:

A Lenda da Erva-Mate



   Diz a lenda que toda tribo tinha partido para a guerra. Mas um homem, por causa de sua idade avançada, teve que ficar. E ele ficou chorando no alto de uma colina, vendo os jovens guerreiros partirem. Ele se lembrava de quando ele era um valente guerreiro e como, agora, estava fraco e envelhecido. Sua única alegria era sua filha Iari. Ela já tinha recusado muitos pedidos de casamento para ficar ao lado do velho pai. Um dia, chegou ao rancho do velho guarani um viajante estranho: com roupas coloridas e olhos lembrando o azul do céu longínquo. O velho logo percebeu que o homem vinha de muito longe e recebeu o viajante com amizade. Iari foi buscar os melhores frutos da floresta e o mel mais doce das abelhas. O velho índio, com os olhos cerrados para melhor lembrar histórias de um mundo afastado no tempo, recordava episódios de sua mocidade. Tudo era feito para que as horas que o estrangeiro passasse naquele rancho fossem agradáveis. No outro dia, com o sol raiando, o viajante já estava pronto para partir. Dirigiu-se então ao velho índio e disse: – Você é uma pessoa muito boa. E a sua bondade merece ser recompensada. Eu sou um mensageiro de Tupã, espírito do bem. Pede o que quiser e eu lhe darei. – Nada mereço pelo que fiz, senhor! – respondeu o guarani. Mas gostaria de um companheiro para a minha velhice, para que minha filha Iari pudesse casar e formar sua própria família. É só o que eu peço: um amigo fiel que fique comigo e me dê ânimo. O mensageiro de Tupã sorriu. Em suas mãos brilhava uma planta repleta de folhagens verdes. O viajante entregou a planta ao velho e disse: – Deixa crescer esta planta e bebe de suas folhas que você vai ter o companheiro que tanto deseja. Esta erva traz em si a força de Tupã e trará conforto para todos os homens de tua tribo. E Iari será a protetora das florestas. As caminhadas de guerra serão menos cansativas e os dias de descanso mais felizes. E desde então, Caá-Iari é senhora das ervas e deusa dos ervateiros. 

  Poema que fiz inspirado na lenda:



  Fonte de informações:

Lendas Brasileiras 

O mito de Aruanã e a criação dos Karajá


   Aruanã era um peixe que vivia nas profundezas do rio Araguaia. De vez em quando subia às margens do grande rio, e contemplava a vida humana. Seu ser aquático enchia-se de tristeza, pois pensava que a verdadeira felicidade estava no cheiro do ar, na beleza da terra. Sentia-se perdido e infeliz em viver nas águas e ser um peixe. Sonhava um dia tornar-se homem e correr pela terra seca.
   Na festa do Boto, o senhor das águas, realizada nas profundezas do Araguaia, todos os seres aquáticos participavam felizes. Lá estavam a bela Iara e a sua irmã Jururá-Açú, deusa das chuvas, e todos os peixes e habitantes do grande rio, numa alegria radiante. Só Aruanã mostrava-se infeliz, a sentir-se estranho àquele mundo, a lamentar ter nascido no rio e jamais poder respirar o ar.
   Ao sair da festa do Boto, Aruanã nadou, nadou, subindo sempre na direção da superfície das águas. Num ímpeto de coragem e determinação em sentir o aquecimento esplêndido da força do Sol sobre a Terra, ele pôs a cabeça de fora das águas. Quase a sufocar com o ar, falou com todas as suas forças de peixe sonhador em busca da felicidade:
   -Grande Tupã, senhor da vida e da natureza, na água nasci, mas nela não quero morrer. Se peixe é o meu corpo, meu coração é humano. Tira-me das águas que me faz infeliz e sem sentido, dá-me o ar como forma de pulsar e a condição de homem como realizador da vida.
   As palavras de Aruanã saíram tão veementes, que Tupã percebeu o verdadeiro destino do valente peixe e a essência da sua alma. Compadecido, o senhor das matas desceu às profundezas do rio Araguaia, arrebatando de lá o infeliz peixe. Voou com Aruanã, que não podendo respirar, debatia-se no ar. Por fim, Tupã deixou-o no campo, sob os raios intensos do Sol e das brisas suaves dos ventos.
   Aruanã debatia-se sobre a relva, pensando que iria sufocar. Não amaldiçoou Tupã, pelo contrário, mesmo sem conseguir respirar o ar da Terra, agradeceu por aquele momento final, iria morrer longe das águas, como sempre sonhara. Fez um louvor ao deus e cerrou os olhos, à espera da morte e da felicidade alcançada.
   Comovido, Tupã iniciou a metamorfose do peixe. Em vez da morte, Aruanã viu as escamas transformadas em pele, revestida de pelos suaves que a brisa contornava em desenhos; braços e pernas musculosas davam-lhe o aspecto viril. O ar finalmente chegou-lhe aos pulmões. Sentiu o cheiro da Terra. Olhou emocionado para o seu corpo e sorriu feliz, já não era um peixe, e sim um homem, forte e belo.
  -Provaste que tens um coração grandioso e valente. – Disse-lhe Tupã. – Serás um grande guerreiro entre os homens; pai da mais sábia das tribos. Aruanã peixe foste, Aruanãs hás de te chamar como homem. Vá, cumpra o teu destino de homem guerreiro!
   Para saldar o belo e jovem Aruanãs, as Parajás, entidades da justiça das matas, vieram e prestaram honras ao guerreiro. Deram a ele uma tribo e as mais belas mulheres. Unindo-se às mulheres, o jovem guerreiro gerou filhos e filhas, dando origem aos valentes Carajás, que formaram uma tribo de índios valentes a viver às margens do rio Araguaia. Todos os anos, por ocasião da Lua cheia, os Carajás realizam o Ritual do Aruanã, prestando, através da dança e do canto, a homenagem justa ao pai da nação Karajá.
 
 
  Um pouco mais sobre a comemoração da festa de Aruanã:
 

Muiraquitãs

"Poucos assuntos tem dado motivo a tantas controvérsias como as famosas pedras verdes ou pedras Amazonas, pois que a elas se prende a lenda das mulheres guerreiras que, na foz do Jamundá, atacara Orellana e seus companheiros e cujo nome acabou por dominar os outros por que também era conhecido o grande rio.
  O Muiraquitã, fetiche de pedra dura e esverdeada que os índios prezavam muito e traziam dependurado ao pescoço, é um dos achados amazônicos que mais curiosidade despertam nos seus primeiros exploradores. Curiosidade não só porque aqueles pequenos objetos pareciam ser feitos de jade, minério de que não se acusavam jazidas na região, mas também porque eram caprichosamente trabalhados, sempre muito bem polidos e, às vezes, até ostentando formas de animais, rãs principalmente, o que emprestava aos seus fabricantes um alto grau de cultura, bem em contraste com o evidente atraso das tribos que ali vivam na ocasião.
  Por isso, não tardaram em aparecer várias suposições que lhes procuravam explicar a origem, desde a lenda ouvida entre os índios de que os muiraquitãs eram feitos de um barro especial, retirado do fundo de certa lagoa e capaz de endurecimento rápido pela exposição ao ar, até a hipótese de Barbosa Rodrigues que os tinha como prova inconcussa da proveniência asiática dos ameríndios, uma vez que não havia diferença entre os nossos amuletos e os que eram fabricados pelos povos de Burma e do Turquestão.
  Se a história contada pelos índios era inverossímil, não deixava de ser bonita. Assim, diziam eles que, em certa época do ano, as Amazonas se reuniam à beira do lago Jaciuaruá ou Espelho da Lua e aí faziam uma grande festa à mãe dos muiraquitãs, que nele habitava um palácio encantado. Era então que as Icamiabas, já sob a luz do luar, mergulhavam nas águas límpidas do lago e iam receber, da mãe das pedras verdes, o barro mole com que desveladamente trabalhavam os seus muiraquitãs, até que o calor do sol chegasse para os consolidar definitivamente. Essa festa coincidia com a vinda anual à tribo das Amazonas dos seus maridos fortuitos, e aos índios, que no consórcio anterior lhes tinham dado uma filha, elas ofereciam o amuleto que acabavam de modelar."

 Hiléia Amazônica - Gastão Cruls. Páginas: 238 e 239


 Há muitas controvérsias sobre a origem desse amuleto e sobre a sua função, alguns dizem que era usado pelas índias pra afastar doenças e infertilidade já em algumas lendas eles são presentes para os índios que lhe dessem filhas. Alguns pesquisadores defendem que essa é uma prova da origem asiática das antigas civilizações amazônicas, pois lá não existiam as jazidas de Jade ou até mesmo "inteligência" o suficiente para trabalhar esse tipo de material. Só que mais pra frente essa teoria foi descartada pois um pesquisador, Simoens da Silva, confirmou a existência desse mineral em Amargosa (BA) e peças também foram encontradas em Campinas (SP), Piuí (MG), Pinheiros (RJ), Óbridos (PA) e Olinda (PE).


Versões da Lenda

  A versão mais conhecida é que as Icamiabas, conhecidas como Amazonas, anualmente faziam uma festa para Iaci, que é a divindade mãe do Muiraquitã, onde índios das aldeias dos Guacaris, que era a tribo mais próxima, viam e mantinham relações sexuais com as índias, as filhas eram poupadas e deixadas pra aprenderem os ensinamentos das mães enquanto os meninos eram sacrificados em homenagem a Iaci, para presentear os índios as Icamiabas entravam em um lago encantado e retiravam lá do fundo a matéria prima para a confecção dos muiraquitãs, ou até mesmo eles já pré moldados, que quando entravam em contato com o ar já endureciam. Eles seriam utilizados como amuletos para os guerreiros. Traziam felicidade, sorte e cura pra quase todas as doenças.
   Considerado como um verdadeiro amuleto da sorte, é de cor verde por ser confeccionado em Jade.

  Algumas outras lendas dizem que não necessariamente o amuleto precisava ser entregue nessa festa para Iaci, que simplesmente a índia poderia entrar no rio e com a matéria prima moldar um Muiraquitã para o seu amado, trazendo proteção nas caçadas.

  Ainda hoje muitas pessoas acreditam no poder de cura e proteção desses amuletos, mas poucos são encontrados em seu local de origem, estando a maioria em museus ou coleções particulares.
 
Significado do Nome
 
"E para terminar, digamos algo sobre a significação da palavra Muiraquitã. Para Barbosa Rodrigues ela quereria dizer nó de pau, nome que lhe parece justificável devido à semelhança que tem o jade, de aspecto céreo e raias sanguinosas, com a resina de algumas madeiras. José Verrísimo não aceita esta etimologia e traduz o vocábulo por pedra de gente, de mirá gente e itá pedra. Ladislau Neto prefere compreende-la por pedra de chefe."
Hiléia Amazônica - Gastão Cruls. Página 242
 
  Como a própria lenda que tem várias versões o nome também pode ter vários significados, isso vai da interpretação de cada um e de como cada leitor entende o Muiraquitã.
 
Indicações de Livros
 
  É encontrado na obra Macunaíma de Mário deAndrade
 

  E também na obra de Francisco José Teixeira, O amuleto Perdido






Imagens de Muiraquitãs:

 

 
 
 
Fontes:

  •  Livro:
Hiléia Amazônica
Aspectos da flora, fauna, arqueologia e etnografia indígena
Autor: Gastão Cruls
Páginas: 238, 239 e 242
 

O Xamanismo indígena

O pajé Kañî-paye com o aray e o charuto. © Eduardo Viveiros de Castro, 1982. 


Pajé ou Xamã

   É o líder espiritual e curandeiro, tem importância vital nos rituais e na tribo. Geralmente por ser mais velho que os demais integrantes da tribo, detém o conhecimento histórico dos antepassados e das plantas e ervas para os tratamentos de cura.
  Como líder espiritual é conhecido como Xamã, em diversas tribos ele que será responsável pelos rituais e por entrar em contato com as entidades protetoras do seu povo, nele também são depositados os poderes do sobrenatural.
  Diferente dos caciques, que são os líderes políticos da tribo, não entrando nessa definição.

Definição

   Não podemos dar apenas uma definição para Xamanismo, pois pode ser entendido como ritual, crença, religião e diversos outros significados. O termo é derivado de diversas palavras, depende muito da origem dos povos que a utilizam. Genericamente dizendo, podemos utilizar o termo para designar um dos mais antigos sistemas de rituais. Não se refere apenas aos povos indígenas que daremos foco aqui, mas a todo um grupo de diversas etnias e localidades mundiais.
  Diferente de outras religiões, não existem verdades inquestionáveis no xamanismo. Eles tentam por meio de seus ritos contato com as forças da natureza, almas dos mortos e animais que vivem em outras dimensões. Os xamãs tentam se conectar com o outro mundo, utilizando toda a magia e conhecimento que adquiriram durante uma vida de ensinamentos.
  Em algumas tribos esse ritual é feito sem o Pajé, um exemplo são os Parakanã do Xingu, localizados no Mato Grosso. Pessoas comuns entram em contato com o mundo espiritual através dos sonhos, dizendo para a tribo os canticos que devem fazer e o modo como o ritual deve seguir. Se uma pessoa está doente, ela pode entrar em contato com o mundo sobrenatural para renovar suas forças, nesse contato aprende novos canticos para passar para a tribo, enxergando as coisas invisíveis, tendo contato com o mundo do sobrenatural.
  A cosmologia indígena acredita que existem dois mundos, onde uma pessoa será dividida:

  •  Constituída pelo corpo que protegerá as almas e
  •  Duas almas, uma se tornará fantasma e a outra terá um destino único

  Os relatos dos índios contam que, antes todos tinham corpo humano, até que algo de errado aconteceu e tudo foi interrompido. Acreditam que os animais cometeram um erro muito grande e por isso foram aprisionados nesses corpos, mas continuam com uma alma humana viva. Os humanos são os únicos que além de manter a alma conseguem compartilhá-la com outros seres da natureza.

Parakanã no Igarapé Lontra. © Alfredo Cabral, 1972.


A Pajelança

  Esse é um termo que normalmente ouvimos quando estamos estudando o xamanismo. Mas o que significa a pajelança? Esse é um termo que veio da floresta Amazônica e é tido quando um elemento vivo faz contato com algo dos reinos da natureza, seja o vegetal, animal ou mineral. De acordo com os indígenas é praticado pelos Pajés.
  Nesses rituais, os xamãs tentam fazer um contato direto com a natureza para refazer algum elo perdido entre o povo e a natureza, por eles acreditarem que as doenças são causadas por fatores cósmicos, nesse ritual eles fazem exorcismos, curas e quaisquer atos que possam anular de alguma maneira, um ato errado que o índio possa ter cometido.
  Existem diversos rituais dentre os diversos povos indígenas, mas algo interessante entre eles é a maneira que são realizados. Por meio deles o equilíbrio do mundo é estabelecido e é de essencial importância na formação das sociedades. Nesses rituais são celebradas as diferenças entre o mundo natural e sobrenatural e todas as diferenças existentes nos seres humanos.

Encontro de Xamãs Yanomami. © Beto Ricardo, 2011.