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Curso de Tupi Antigo: Aula 6



Taquarenduva, Mantiqueira, Itaipu, Pindamonhangaba, Pernambuco, Catanduva, Nuporanga, Garanhuns...Depois de ler esta lição, você saberá o que esses nomes significam.

Algumas transformações fonéticas
Quando uma consoante surda (K, T, P, S) vier depois de um fonema nasal numa composição ou numa afixação, ela se nasaliza, a não ser que já exista outro fonema nasal no vocábulo onde aparece a consoante surda. Mesmo caindo o fonema nasal, a vogal anterior continua nasal. Assim:

K
torna-se NG
 
T
torna-se ND
 
P
torna-se MB ou M
 
S
torna-se ND
 

Ex.-
kunumim + katu - kunumim-ngatu - menino bom
nhum + -pe - nhum-me - no campo
mena + sy - men(a)-ndy - mendy - mãe de marido, sogra
Agora veja:
kunumim-porang-a - menino bonito - Em porang já existe um fonema nasal (ng). Sendo assim, o p não se nasaliza diante do fonema nasal final de kunumim.
Tupã sy - a mãe de Deus - Não há composição aqui. Assim, o s não se nasaliza (v. §58).
kunhã-kane’õ - mulher cansada - O k de kane’õ não se nasaliza porque já existe outro fonema nasal no vocábulo.
nhe’enga + katu - nhe’e(nga)-ngatu - nhe’e -ngatu - língua boa, fala boa
tetama + -pe - teta(ma)-me - tetã-me - na região, na terra

EXERCÍCIO 12

Para praticar a aplicação das regras de transformação fonética, verta para o tupi as composições acima e aprenda o significado do nome de muitas localidades brasileiras e de muitos termos de origem tupi.
 
01 - mulher cansada
02 - camarão vermelho
03 - enseada de mar (cidade do Paraná)
04 - mata branca (nome de vegetação do sertão nordestino)
05 - na rede (de dormir)
06 - barulho de passarinhos
07 - lugar de fazer anzóis
08 - dança de mulher
09 - fenda de mar (nome de estado brasileiro)
10 - ossos de passarinho
11 - pião de menino
12 - ajuntamento de passarinhos
13 - ajuntamento de cerrado (nome de município de São Paulo)
14 - prato comprido
15 - campo silencioso
16 - campo dos guarás (nome de município de Pernambuco)
17 - na bica d’água
18 - gotas de chuva (nome de serra de Minas Gerais)

VOCABULÁRIO 
ajuntamento - tyba
barulho - pu
bica d’água - ‘y - tororoma
branco - ting
camarão - potim
campo - nhum
cana-de-açúcar - takûar-e’em
cansado - kane’õ
cerrado (tipo de vegetação do Brasil) - ka’a-atã
chuva - amana
comprido - puku
dança - poraseîa
enseada - kûá
fenda - puka
gota – tykyra
guará - gûará
lugar de fazer anzóis - pindá-monhang-aba
mar – paranã
mata – ka’a
menino - kunumim
mulher - kunhã
osso - kanga
passarinho - gûyrá-’im
pião - pyryryma
prato - nha’em
rede (de dormir) - inim
silencioso - kyririm
vermelho - pyrang


Curso de Tupi Antigo: Aula 5



Os Pronomes Pessoais - (Continuação)
 
Itaporanga, Iporanga, Botucatu, Ibicatu... Que significam poranga e catu?
 
Os pronomes pessoais em tupi são divididos em duas séries:
 

Primeira série   Segunda série
ixé - eu   xe- eu
endé - tu   nde ou ne - tu
a’e - ele, ela (aquele,-a)   i - ele, ela
oré - nós (excl.)   oré - nós (excl.)
îandé - nós (incl.)   îandé - nós (incl.)
pee - vós   pe - vós
a'e - eles, elas   - eles, elas
asé - a gente; nós todos    
     
Com verbos, usam-se preferencialmente os pronomes pessoais da primeira série, conforme o que você já viu na lição 1. Com adjetivos, usam-se preferencialmente os da segunda série.

Os adjetivos qualificativos e predicativos

Os adjetivos podem ser qualificativos ou predicativos.
 
Ex.
Qualificativos Predicativos
ta(ba)-porang-a -  aldeia bonita taba i porang  -  a aldeia, ela (é) bonita
 taba i porang  -  a aldeia, ela (é) bonita x  ‘y i pyrang      -  o rio, ele (é) vermelho
   
Quando dizemos casa bonita, usamos um adjetivo qualificativo, porque ele se prende diretamente ao substantivo. Se dizemos a casa é bonita, usamos um adjetivo predicativo, porque ele se prende ao substantivo por meio de verbo de ligação. Neste último caso, nós afirmamos alguma coisa da casa (que ela é bonita). Na predicação, assim, usamos, em português, um verbo de ligação, que no exemplo acima é o verbo ser. Porém, em tupi não existe o verbo ser.
Se queremos dizer menino bonito, basta justapor porang ao substantivo, acrescentando o sufixo -A à composição formada. Dizemos pois kunumim-porang-a. Se quisermos dizer “o menino é bonito” teremos de usar o pronome pessoal de 3ª pessoa, I, dizendo assim: kunumim i porang. (Literalmente isso significa “o menino, ele (é) bonito.)” Subentendemos o verbo ser, que em tupi não tem correspondente. Se quisermos dizer “eu sou bonito”, dizemos xe porang. Veja, assim, que com adjetivos predicativos usamos os pronomes pessoais da segunda série. O pronome I de 3a pessoa só se usa com eles:

xe porang eu (sou) bonito
nde porang tu (és) bonito
i porang ele (é) bonito
oré porang nós (somos) bonitos (excl.)
îandé porang nós (somos) bonitos (incl.)
pe porang vós (sois) bonitos
i porang eles (são) bonitos

Outros exemplos:
nde katu tu (és) bom (com adjetivos não se usa comumente endé)
pe katu vós (sois) bons (com adjetivos não se usa comumente pee)
i katu ele (é) bom (com adjetivos não se usa nunca a’e)
oré katu nós (somos) bons
Com substantivos servem as duas séries, menos o pronome I, que, na função de sujeito, só se usa com adjetivos. Podem vir antes ou depois do substantivo.
 
Ex.-  
xe morubixaba eu (sou) o cacique
ixé morubixaba eu (sou) o cacique
morubixaba ixé o cacique (sou) eu
Se o sujeito for substantivo, o adjetivo predicativo deverá vir sempre antecedido do pronome pessoal I, que é um sujeito pleonástico.
Ex.-
Kunhã i katu
. - A mulher, ela (é) bondosa. Kunhã i porang. - A mulher, ela (é) bonita.
O adjetivo que qualifica um substantivo está sempre em composição com ele e é invariável em número. Também a composição de substantivo + adjetivo deve terminar sempre em vogal. Acrescentamos -A se o segundo termo da composição terminar em consoante. Esse -A refere-se não ao adjetivo, mas à composição formada pelo substantivo e pelo adjetivo. O adjetivo qualificativo sempre está em composição com o substantivo.

 
Ex.-
Bonito em tupi é porang. Agora:
kunhã-porang-a - mulher bonita, (ou mulheres bonitas) - Acrescentamos um A porque o adjetivo termina em consoante.
Bom em tupi é katu. Então: Abá-katu - homem bom (ou homens bons) - A composição termina em vogal (u). Assim, não acrescentamos o sufixo -A final.
 

Ex.-    
taba + porang tá’-porang-a aldeia bonita
upaba + nem upá’-nem-a lago fedorento
‘y + pyrang ‘y-pyrang-a rio vermelho
Exercício 10
Com base no vocabulário dado abaixo, traduza para o tupi as frases seguintes: 
 
Adjetivos
alto - puku
bom - katu
bonito - porang
fedorento - nem
pequeno - mirim
sujo - ky’a
vermelho - pyrang


Substantivos
aldeia - taba
árvore - ybyrá
Cunhambebe - Kunhambeba
homem - abá
menino - kunumim
mulher - kunhã
padre - abaré
Potira - Potyra
Reritiba - Rerityba
rio - ‘y
 
01 - O homem bom é fedorento. 02 - O homem fedorento é bom. 03 - O menino pequeno é bonito. 04 - O menino bonito é pequeno. 05 - O rio vermelho é sujo. 06 - O rio sujo é vermelho. 07 - O homem bonito é alto. 08 - O homem alto é bonito. 09 - A árvore pequena é vermelha. 10 - A árvore vermelha é pequena.

EXERCÍCIO 11
Traduza as frases abaixo com base no vocabulário mnemônico apresentado:
- Potengi (rio do Rio Grande do Norte) - de potim - camarão + îy – rio*: rio dos camarões
- Tietê (rio de São Paulo) - de ty- rio, água* + eté - muito bom, verdadeiro, genuíno:  rio muito bom,    rio verdadeiro
- Tijuca (nome de rio do Rio de Janeiro) - de ty - rio, água + îuk - podre:  rio podre,  água podre
- Paraíba (estado brasileiro e nome de rio que banha sua capital) - de pará - rio grande ou mar* + aíb
- ruim, mau: rio ruim
- Paranapanema (nome de rio que separa os estados de São Paulo e Paraná) - de paranã - mar ou rio   grande* + panem - imprestável: rio imprestável
- Bauru (nome de município de São Paulo) - de ‘ybá - fruta + uru - vasilha: vasilha de frutas
- Peruíbe (nome de município de São Paulo) - de iperu - tubarão + ‘y - rio + -pe - em: no rio dos   tubarões

*Atenção!
Rio, em Tupi Antigo pode ser ‘y ou ty. No Nordeste, achamos também a forma îy. Rio grande, rio de grande volume d´água, pode ser paranã (que também significa mar) ou pará.
 
01 - Potim i pyrang. Potim o-‘ytab ty-îuka pupé.
02 - ‘Ybá o-kuî ybyrá suí. ‘Ybá i îuk.
03 - Kunumim-aíb-a o-só pará-gûasu-pe.
04 - Abá-panema o-ker pirá-îy-pe.
05 - Iperu o-sem paranã suí.
06 - ‘Ybá-îuka o-îkó uru pupé.
07 - Kunhã-aíba o-nhe’eng abá-panema supé.
08 - Iperu-panema o-‘ytab pirá-îy-pe.

Curso de Tupi Antigo: Aula 4


Que significa Etá em Guaratinguetá e Paquetá?

ETÁ (muitos, muitas) vem sempre posposto ao substantivo, formando uma composição com ele. O sufixo -A final, se existir, cai. (Usaremos sempre o hífen com as composições)
Ex.-
pak(a)-etá (donde Paquetá - ilha do Rio de Janeiro) - muitas pacas
peró-etá - muitos portugueses
itá-etá (donde Itaetá, nome de arroio do Rio Grande do Sul) - muitas pedras
abá-etá - muitos índios
ygarusu-etá - muitos navios
gûyrá-ting(a)-etá - muitas aves brancas, muitas garças (donde Guaratinguetá – município paulista)

Exercício 9
 
Traduza:
 
01 - Muitos índios vão para o rio.   
02 - Muitos índios saem da canoa.  
03 - Muitos navios estão na enseada.   
04 - Muitos portugueses falam aos índios.  
05 - Muitas pacas ficam dentro da mata.  
06 - Muitas garças saem do rio.  
07 - Muitos índios moram em Nhoesembé.  
08 - Muitos tatus vão para a mata.   
09 - Muitos meninos estão dentro do navio.  
10 - Muitas pacas moram na mata.


Vocabulário:
Vocabulário Tupi Antigo

Fonte:
Curso de Tupi Antigo

Curso de Tupi Antigo: Aula 3



Por que Iguape, Cotegipe e Sergipe terminam em -pe?
"Eu fui ao Itororó beber água e não achei"...
Que quer dizer Itororó?
Ele estava numa pindaíba...Até fome passava?
Donde vem tal expressão?
Ixé a-ker ka’a-pe.

Eu durmo no mato.

A posposição em Tupi

As preposições do português correspondem, em tupi, a posposições, porque aparecem depois dos termos que regem. Há posposições átonas, que aparecem ligadas por hífen, mas a maior parte delas é tônica, vindo separadas dos termos que regem.

Ex.-

-PE - em, para (geralmente locativo). É posposição átona:
siri ‘y-pe (donde Sergipe - estado brasileiro) - no rio dos siris, para o rio dos siris
akuti îy*-pe (donde Cotegipe) - no rio das cotias
‘y kûá-pe (donde Iguape) - na enseada do rio
iperu ‘y-pe (donde Peruíbe - município paulista) - no rio dos tubarões

(*água, rio, em Tupi Antigo, é ‘y ou îy, tendo sido usada esta última forma principalmente na porção nordeste do Brasil)

SUPÉ -
para (pessoas ou coisas) - só para a 3a pessoa
abá supé - para o índio
morubixaba supé - para o cacique
Maria supé - para Maria

SUÍ - de (proveniência, causa)
îakaré ‘y suí - do rio dos jacarés
tatu ‘y suí - do rio dos tatus
Piratininga suí - de Piratininga (antigo nome de São Paulo)

PUPÉ - dentro de
arará kûara pupé - dentro do buraco das ararás (var. de formiga)
oka pupé - dentro da casa

A RELAÇÃO GENITIVA EM TUPI

Em tupi não existe posposição correspondente à preposição DE do português, que exprime uma relação de posse como “casa de Pedro”, ou outras relações como “faca de prata” (relação de matéria), etc. Basta, para exprimi-las em tupi, juntar os dois substantivos em ordem inversa à do português, como faz o inglês, por exemplo, em “Peter’s house” (“casa de Pedro”) ou como faz o alemão em ‘‘Volkswagen’’ (“carro do povo”). Tal relação que leva, em português, a preposição DE e que exprime posse, pertença, origem, qualidade, atribuição de algo a alguém, etc. , é a que chamaremos “relação genitiva”. Chamaremos o primeiro termo da relação genitiva de genitivo ou determinante.

Ex.-

mãe de Pindobuçu Pindobusu sy
rio do tatu tatu ‘y
rio do jacaré îakaré ‘y
enseada do rio ‘y kûá
navio dos portugueses peró ygar-usu
língua dos índios abá nhe’enga
jorro d´água ‘y tororoma
planta de anzol (vara de pescar) pindá ‘yba

Outros exemplos:
menino de pedra itá kunumim - (itá = pedra) (kunumim = menino)
farinha de milho abati u’i - (u’i = farinha) (abati = milho)
prato de pedra itá nha’em - (nha’em = prato) (itá = pedra)

EXERCÍCIO 4


Traduza:
01 - A-sem Nhoesembé suí.
02 - Ere-só îakaré ‘y-pe.
03 - Oro-pytá siri ‘y-pe.
04 - A-nhe’eng peró supé.
05 - Ere-nhe’eng abá supé.
06 - Pe-îkó ‘y pupé.
07 - Morubixaba supé pe-nhe'eng.
08 - Îakaré o-sem ‘y suí.
09 - Pe-sem tatu kûara suí.
10 - Ka'a-pe ere-só.

EXERCÍCIO 5


Verta para o Tupi:
01 - Fico em Nhoesembé.
02 - Ficamos (incl.) no rio.
03 - Moramos (excl.) em Nhoesembé.
04 - Ficas dentro do navio.
05 - Saímos (incl.) da canoa.
06 - Falaste aos índios.
07 - Os índios falam a Maria.
08 - Ficamos (incl.) dentro do navio.
09 - Pedro está dentro do navio.
10 - Saio da mata.

EXERCÍCIO 6

Traduza as frases abaixo com base no vocabulário mnemônico dado abaixo:
- Avaré (município de São Paulo): abaré - padre
- Velha coroca: kuruk - resmungar, resmungão
- Itabira (cidade de Minas Gerais) - de itá - pedra + byr - levantar-se, erguer-se:  pedra   levantada
- Itapecirica (cidade de São Paulo): itá - pedra + peb - achatado + syryk - escorregar:   pedra   achatada escorregadia
- Comandacaia (localidade da Bahia): komandá - fava + kaî - queimar: favas  queimadas
- Pirabebé (nome de um peixe): pirá - peixe + bebé - voar: peixe voador
- Pipoca: pira - pele + pok - estourar: pele estourada
- Voçoroca (tipo de erosão da terra) - de yby - terra + sorok - rasgar: terra rasgada
- Boiçucanga (município de São Paulo) - de mboia - cobra + usu - sufixo de aumentativo +   kanga -   esqueleto, osso
- Tocantins (estado brasileiro) - de tukana - tucano + tim - bico, nariz, saliência:  bico de   tucano

01 - O tucano ergueu-se da terra. Voou para a mata.
02 - O padre escorregou na pedra. Resmungou, ergueu-se, foi para o rio.
03 - O esqueleto do tucano está na terra.
04 - A pele da cobra estourou.
05 - O nariz do padre é achatado.
06 - A casa queimou.
07 - As favas estouraram.
08 - O tucano dormiu.
09 - A casa de carijós queimou.
10 - Escorreguei dentro do rio das pedras.

EXERCÍCIO 7

01 - A mãe de Pedro é bonita.
02 - A toca da onça é comprida.
03 - O filho de Maria é bom.
04 - Nadei no rio dos peixes.
05 - Pedro nadou no rio dos gravatás.
06 - Dormi na toca das araras.
07 - Maria ficou no rio dos tatus.
08 - Vou para a enseada de pedra.
09 - Maria mora dentro da casa de pedra.
10 - O rio dos siris é bonito.

EXERCÍCIO 8

Traduza para o Tupi com base no vocabulário mnemônico dado abaixo:
- Pari (nome de bairro de São Paulo): pari - canal para apanhar peixes
- Itaquera (bairro de São Paulo): itá - pedra + ker - dormir: pedra dormente
- Capibaribe (nome de rio de Pernambuco) - kapibara - capivara + ‘y - rio + -pe  (posposição) - em
- Itapororoca (município da Paraíba) - itá - pedra + pororok - explodir: pedras explodidas ou explosão   das pedras
- Pirapora (município da Bahia) - pirá - peixe + por - pular: pulo dos peixes ou  peixes que pulam
- Iquiririm (rua de São Paulo) - ‘y - rio + kyririm - silencioso
- carioca (nome de quem nasce na cidade do Rio de Janeiro) - de kariîó - carijó - nome de grupo   indígena + oka - casa: casa de carijós
01 - A capivara saiu do pari.
02 - O carijó pulou dentro do rio.
03 - O carijó silencioso dormiu dentro da casa.
04 - A casa explodiu.
05 - A capivara dormiu no rio das pedras.

Vocabulário:

Vocabulário Tupi Antigo

Fonte:

Curso de Tupi Antigo

Curso de Tupi Antigo: Aula 2




“Vamos parar de nhen nhen nhen...”

Que significa "nhen nhen nhen"?

Ixé a-nhe’eng.


Eu falo

Os verbos da primeira classe

Falar, em Tupi antigo, é nhe’eng. Em Tupi antigo os verbos flexionam-se à esquerda, i.e., no começo, e não à direita como acontece em português (p.ex., falo, falas, fala, etc.):

Verbo falar (nhe’eng), no modo indicativo - presente ou pretérito:

ixé a-nhe’eng eu falo; eu falei
endé ere-nhe’eng tu falas; tu falaste
a’e o-nhe’eng ele fala
oré oro-nhe’eng nós falamos (exclusivo)
îandé îa-nhe’eng nós falamos (inclusivo)
pee pe-nhe’eng vós falais; vós falastes
a’e o-nhe’eng eles falam

Os verbos da primeira classe recebem prefixos número-pessoais, como você pode ver acima (a- ere-, o-, oro-, îa-, pe-, o-). A 3ª pessoa do singular e a 3ª pessoa do plural não se diferenciam.
Você deve ter percebido que há duas formas que traduzem nós. Existe o nós inclusivo e o nós exclusivo. Isso acontece em muitas línguas indígenas, até mesmo nas do Peru e do México.

INCLUSIVO: INCLUI O OUVINTE
EXCLUSIVO: EXCLUI O OUVINTE

Se dissermos, em Tupi, para um grupo de índios: - “Nós somos portugueses” ou - “Nós viemos de Portugal”, devemos usar o “nós” exclusivo (ORÉ), pois os índios não se incluem nesse “nós”. Se dissermos, porém, “Nós morreremos um dia”, incluem-se, aí, aqueles com quem falamos. Usa-se, então, a forma inclusiva (ÎANDÉ), que inclui a 1a e a 2a pessoas. Há também a forma ASÉ, que significa “a gente”, eu, tu e ele, que leva sempre o verbo para a 3ª pessoa, também equivalente ao se, como índice de indeterminação do sujeito, em Bebe-se aqui, come-se bem ali.


Observações importantes

Todo infinitivo de verbo tupi sempre termina em vogal. Se o verbo tiver o tema terminado em consoante, no infinitivo ele recebe o sufixo -A.
Ex.-
só..............infinitivo: só
sykyîé........infinitivo: sykyîé
syk............infinitivo: syk-a
nhe’eng.....infinitivo: nhe’eng-a
sem...........infinitivo: sem-a

O infinitivo verbal em tupi é um perfeito substantivo.

Assim:

só - o ir, a ida
sykyîé - o temer, o medo
syk-a - o chegar, a chegada
nhe’eng-a - o falar, a fala
sem-a - o sair, a saída

EXERCÍCIO 1:

Conjugue os seguintes verbos em todas as pessoas, usando os pronomes pessoais (eu, tu, ele, etc.), conforme o modelo.

  (ir)
ixé a-só   eu vou; eu fui
endé ere-só   tu vais; tu foste
a’e o-só   ele vai; ele foi
asé o-só   a gente vai
oré oro-só   nós vamos, nós fomos (excl.)
îandé îa-só   nós vamos, nós fomos (incl.)
pee pe-só   vós ides; vós fostes
a’e o-só   eles vão; eles foram

Continue agora:

1) KOPIR - (carpir)
2) PYTÁ - (ficar)
3) SYKYÎÉ - (temer, ter medo)
4) IKÓ - (estar, morar)*
5) SEM - (sair) - donde "piracema" - saída dos peixes
6) SYK - (chegar) - donde Piracicaba - chegada dos peixes
7) ‘YTAB - nadar

*A vogal i , átona, após uma outra vogal, forma ditongo, tornando-se î (semivogal).
O- + ikó > o-îkó (forme um ditongo no oi)

EXERCÍCIO 2

Verta para o Tupi as frases abaixo com base no vocabulário mnemônico que apresentamos a seguir:

1) Sorocaba: sorok - rasgar-se + -aba - sufixo substantivador, podendo também significar "lugar da rasgadura" da terra
2) ir para a cucuia: de kukuî - ficar caindo, ficar-se desprendendo (o fruto, o cabelo, etc.), reduplicação de kuî - cair, desprender-se: ir para a decadência
3) maracujá - murukuîá
4) aoba - roupa
5) sapo cururu na beira do rio (cantiga folclórica brasileira): de kururu - sapo
6) Avanhandava - abá - homem, pessoa, índio + nhan - correr + aba - lugar: lugar da corrida dos homens) 7) Jaci (nome próprio) - de îasy - lua
8) Itaberaba (município de Minas Gerais): de itá - pedra + berab - brilhante: pedra brilhante)

1 - A roupa rasgou-se.
2 - O maracujá caiu.
3 - O sapo dormiu.
4 - O homem correu.
5 - A lua brilhou.

EXERCÍCIO 3


Traduza:
1 - Abá o-kopir.
2 - Itá o-berab.
3 - Kururu o-‘ytab.
4 - Abá o-sykyîé.
5 - Îasy o-sem.

Vocabulário:

vocabulário Tupi Antigo

Fonte:

Curso de Tupi Antigo

Curso de Tupi Antigo: Introdução e Aula 1


Introdução ao Tupi Antigo

  Nós nos propomos, aqui, a ensinar-lhe, de modo correto, o Tupi Antigo, a língua indígena clássica do Brasil, a velha língua brasílica dos primeiros dois séculos de colonização do nosso país. Você aprenderá os fundamentos da língua Tupi e conhecerá onde ele está presente na língua portuguesa e na geografia do Brasil.
  Infelizmente há cursos sem a mínima seriedade, que ensinam Nheengatu da Amazônia como se fosse Tupi Antigo, de envolta com o Guarani paraguaio. Tudo isso mais confunde os alunos que os ensina. Ora, estudar Tupi Antigo exige a mesma seriedade científica que exige o estudo de qualquer outro idioma. Assim, antes de tudo, é importante que certos conceitos fiquem bem claros para quem começa a estudar essa língua.
 

Conceitos Importantes
 

TUPI ANTIGO - Essa foi a língua que os marinheiros da armada de Cabral ouviram quando aqui chegaram em 1500 e que ajudou na construção espiritual do Brasil. Naquela época, essa língua era falada em toda a costa do Brasil por muitos grupos indígenas: os Potiguaras, os Caetés, os Tupinambás, os Temiminós, os Tabajaras, etc. Seu primeiro gramático foi o Padre José de Anchieta, que publicou sua Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, em 1595.
  Chegou a ser, por séculos, a língua da maioria dos membros do sistema colonial brasileiro, de índios, negros africanos e europeus, contribuindo para a unidade política do Brasil. Forneceu milhares de termos para a língua portuguesa do Brasil, nomeou milhares de lugares no nosso país (sendo, depois do português, a língua que mais produziu nomes geográficos em nosso território), esteve presente em nossa literatura colonial, no Romantismo, no Modernismo, foi a referência fundamental de todos os que quiseram afirmar a identidade cultural do Brasil. “Falada na catequese e nas bandeiras, instrumento das conquistas espirituais e territoriais da nossa história, o seu conhecimento, sequer superficial, faz parte da cultura nacional” (Lemos Barbosa, 1956).


LÍNGUA GERAL – Foi uma língua surgida da evolução do Tupi Antigo, a partir da segunda metade do século XVII, quando, então, era falada por todos os membros do sistema colonial brasileiro: negros, brancos, índios tupis e não tupis, mestiços.


TUPI-GUARANI – não é uma língua, mas uma família de mais de vinte línguas. Inclui o Tapirapé, o Wayampi, o Kamayurá, o Guarani (com seus dialetos), o Parintintin, o Xetá, o Tupi Antigo, etc. Existem línguas Tupi-Guarani, não o Tupi-Guarani. Dessas, o Tupi Antigo é a que foi estudada primeiro e a que mais influenciou a formação da cultura brasileira.
 

NHEENGATU – é uma língua da Amazônia, uma evolução da língua geral, falada por caboclos no vale do Rio Negro, na Amazônia. É uma fase atual do desenvolvimento histórico do Tupi Antigo, mas não é o Tupi Antigo.

TUPI MODERNO – é o nome que alguns dão ao Nheengatu da Amazônia ou, ainda, a certas línguas faladas da família Tupi-Guarani. Não é a língua que Anchieta estudou, mas uma evolução dela.

Chave da pronúncia do tupi antigo
 
VOGAIS:

A: ka’a - mata;
a-karu - (eu) como; 

taba - aldeia
E: ere-ker - (tu) dormes;
ixé - eu;
pereba - ferida
I: itá - pedra;
pirá - peixe;
maíra - francês
O: "a-só" (leia assó) - (eu) vou;
oka - (leia "óca") - casa 

U: upaba - lago;
sumarã - inimigo;
puká - rir
Y: fonema que não existe no português, mas existe no russo e no romeno. É uma vogal média, intermediária entre u e i, com a língua na posição para u e os lábios estendidos para i. (Sugestão prática: diga u e vá abrindo os lábios até chegar à posição em que você pronuncia i.)

Todas as vogais acima têm suas correspondentes nasais.

Consoantes e Semivogais

- representa a consoante oclusiva glotal, que não existe em português. Tal fonema realiza-se com uma pequena interrupção da corrente de ar, seguida por um súbito relaxamento da glote: emba’e - coisa, so´o - caça

B - Pronuncia-se como o v do castelhano em huevo. É um b fricativo e não oclusivo, isto é, para pronunciá-lo, os lábios não se fecham, apenas friccionam-se: abá - homem; ybyrá - árvore; t-obá - rosto

Î - Como a semivogal i do português, em vai, falai, caiar, bóia, lei, dói: îuká - matar; îase’o - chorar; îakaré - jacaré

NH
- É um alofone (i.e., uma outra forma) de î e pronuncia-se como no português ganhar, banha, rainha: kunhã - mulher; nhan - correr;nharõ - raiva, ferocidade; nhandu-’i - aranha.

K - Como o q ou o c do português antes de a, o ou u, como em casa, colo, querer: ker - dormir; îuká - matar; paka - paca; ybaka - céu.

M (ou MB) - Como em português mar, mel, manto, ambos, samba: momorang - embelezar; mokaba - arma de fogo; moasy - arrepender-se. Às vezes o m muda-se em mb, que é um alofone. Em mb, o b é oclusivo, devendo-se encostar os lábios para pronunciá-lo.
  O m final deve ser sempre pronunciado, isto é, devem-se fechar os lábios no final da pronúncia da palavra, como no inglês “room” : a-sem - (eu) saio.

N (ou ND) - Como no português nada, nicho, nódoa, andar, indo: nupã - castigar; nem - fedorento; nong - pôr, colocar. Às vezes o n muda-se em nd, que é seu alofone.
Ex.: ne ou nde - tu; amã’-ndykyra - gotas de chuva
O n final deve ser sempre pronunciado: você deverá estar com a língua nos dentes incisivos superiores ao finalizar a pronúncia da palavra:nhan - correr; momaran - fazer brigar.

NG - Como no inglês “thing” - coisa ou “sing” - cantar. monhang - fazer; nhe’eng - falar

P - Como no português pé, porta, pedra: potim - camarão; potar - querer; pepó - asa.

R - É sempre brando, como no português aranha, Maria, arado, mesmo no início dos vocábulos: ro’y - frio; aruru - tristonho; paranã - mar; ryryî - tremer.

S - Sempre soa como no português Sara, assunto, semana, pedaço (nunca tem som de z): a-só (leia: assó) - vou; sema - saída. Às vezes, após i e î o s realiza-se como x (seu alofone): i xy - mãe dele; su’u - morder, a-î-xu’u - mordo-o.

T - Como em antena, matar, tato: tutyra - tio; taba - aldeia; tukura - gafanhoto.

Û - Como a semi-vogal u do português em água, mau, nau, audácia, igual. Em início de sílaba pode ser pronunciado como gû: ûyrá ougûyrá - pássaro; ûi-tu ou gûi-tu - vindo eu; ûatá ou gûatá - caminhar.

X - Como o ch ou o x do português em chácara, chapéu, xereta, feixe: ixé - eu; t-aîxó - sogra; i xy - sua mãe.

Exercício 01

Leia as seguintes palavras tupis:

A-
morubixaba (cacique)
ygara (canoa)
syk (chegar)
kûá (enseada)
nhe’eng (falar)
pytá (ficar)
gûyratinga (garça)
abá (índio)
îakaré (jacaré)
ygarusu (navio)
paka (paca)
peró (português)
ybyrá (árvore)
tendy (luz)
‘aka (chifre)
moti’a (peito)

ybytyra (monte, montanha


Vocabulário:

vocabulário Tupi Antigo

Fonte:
Tupi Antigo